Remédios para Parkinson, TDAH e doenças raras estão zerados na Farmácia de Pernambuco
Levantamento da Diretoria Geral de Assistência Farmacêutica da Secretaria de Saúde mostra 50 medicamentos sem uma única unidade disponível. Ao todo, 59 não têm estoque suficiente para atender sequer à demanda de um mês

Faltam tiras para medir a glicose de pacientes com diabetes. Não há estoque de levodopa com benserazida, usada no tratamento da doença de Parkinson. Três apresentações de mesalazina, indicada para doenças inflamatórias intestinais, também estão zeradas. O mesmo acontece com medicamentos para TDAH, epilepsia, doença falciforme, dor crônica e doenças raras. Esse é o retrato do abastecimento da Farmácia de Pernambuco, responsável por fornecer medicamentos especializados, geralmente de uso contínuo e de alto custo, destinados ao tratamento de doenças crônicas e raras.
A planilha dos medicamentos comprados diretamente pelo Governo do Estado, atualizada em 3 de agosto, reúne 223 itens. Desse total, 50 estão completamente zerados. Outros nove ainda têm alguma quantidade armazenada, mas não o suficiente para atender à demanda do mês. Na prática, são 59 medicamentos desabastecidos, o equivalente a 26,5% da relação.
O percentual, sozinho, diz pouco. Os medicamentos e os tratamentos comprometidos, porém, ajudam a dimensionar o problema. Um dos casos mais graves é o das tiras reagentes para medição de glicose no sangue. A planilha da Diretoria Geral de Assistência Farmacêutica da Secretaria Estadual de Saúde aponta uma necessidade mensal de 640 mil unidades, destinadas a 5.149 usuários. Mas o estoque registrado é zero. As tiras fazem parte do acompanhamento de pacientes com diabetes tipo 1, tipo 2 e diabetes gestacional.
A teriparatida, usada no tratamento da osteoporose, está praticamente esgotada. Para uma demanda mensal de 828 canetas, há apenas quatro unidades disponíveis. São 801 pacientes registrados. O estoque cobre menos de 1% do necessário para o mês.
Também chama atenção a situação da risperidona em solução oral, utilizada pelo protocolo estadual para pacientes com comportamento agressivo associado ao transtorno do espectro autista. A necessidade mensal é de 27.778 frascos, mas o estoque tem 10.646, quantidade suficiente para pouco mais de dez dias. A planilha registra 1.240 usuários nessa apresentação.
A lista de medicamentos zerados inclui a associação de levodopa com benserazida, uma das terapias usadas contra a doença de Parkinson. A Farmácia de Pernambuco registra 222 pacientes e uma demanda mensal de 23.349 unidades. Não há nenhuma em estoque. O triexifenidil, que também integra o tratamento previsto para Parkinson, está igualmente zerado.
Para os pacientes com doenças inflamatórias intestinais, o problema aparece em três apresentações da mesalazina: supositórios de 1 grama e 250 miligramas, além da solução de 10 miligramas por mililitro. Todas estão sem estoque. Juntas, atendem a uma demanda informada de 7.011 unidades por mês. A mesalazina é usada no tratamento da retocolite ulcerativa e, em algumas apresentações, da doença de Crohn. São doenças que exigem controle contínuo. A falta do medicamento aumenta o risco de interrupção ou de mudança forçada no tratamento prescrito.
A pancreatina de 10 mil unidades, usada por pacientes com fibrose cística e insuficiência pancreática, tem apenas 1.290 cápsulas para uma necessidade mensal de 10 mil. O estoque atende a menos de quatro dias. A planilha registra 187 usuários. Outros dois produtos relacionados ao tratamento da fibrose cística também estão zerados: o racealfatocoferol, com 99 pacientes registrados, e o colistimetato de sódio.
Há ainda falta completa dos complementos alimentares usados por pessoas com fenilcetonúria, uma doença rara que exige alimentação rigorosamente controlada. As duas apresentações listadas somam 52 pacientes e estão com estoque zero.
O metilfenidato de 18, 36 e 54 miligramas, usado no tratamento do TDAH, está com as três dosagens zeradas. O protocolo estadual prevê o fornecimento do metilfenidato para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.
CADASTRO E RENOVAÇÃO – O problema na Farmácia de Pernambuco não está restrito aos estoques. Informações de dentro da unidade apontam que a análise de novos cadastros e renovações está muito mais lenta do que o habitual. O cadastro precisa ser renovado a cada seis meses para que o paciente continue recebendo a medicação.
Cerca de 6 mil processos estariam pendentes: aproximadamente 3 mil de novos usuários e outros 3 mil de pacientes que aguardam renovação. Se um novo paciente ainda espera a aprovação do cadastro, ele pode não aparecer integralmente no cálculo usado para planejar as compras. O mesmo vale para quem está com a renovação parada. A burocracia, nesse caso, não atrasa apenas o acesso ao medicamento. Ela também pode esconder parte da fila.




