Monitoramento de tubarões em Pernambuco precisa virar política de Estado, diz cientista
Cientistas defendem que incidentes com tubarões podem ser reduzidos em Pernambuco com recuperação ambiental e uma política de Estado contínua para monitoramento e educação da população

FONTE: Diário de Pernambuco
Com quatro incidentes envolvendo tubarões em 2026, Pernambuco não dispõe de uma política de Estado de monitoramento e educação ambiental voltada para tubarões. É o que aponta o professor de Engenharia de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Paulo Oliveira, membro da equipe responsável por vencer o edital do Governo de Pernambuco, captando R$ 1 milhão para dois anos de monitoramento em Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.
Apesar de reconhecer a importância do recurso, o pesquisador destaca que o monitoramento precisa acontecer de forma contínua e lembra que o estado está desde 2015 sem acompanhar os animais. “Esse recurso que recebemos agora para monitoramento não foi dado, nós conquistamos através de um edital. O monitoramento não pode depender de escolhas políticas de governo A ou B, mas ser transformado em uma política de Estado, com recursos garantidos inclusive para educação da população”, destaca Oliveira.
O pesquisador afirma que a descontinuidade do programa de monitoramento da UFRPE, lançado no início dos anos 1990, impede que os cientistas analisem a situação da costa pernambucana com precisão, através de uma série histórica. Ele também lembra que novos tubarões nascem, crescem e morrem de maneira dinâmica, bem como ressalta que as mudanças climáticas têm afetado o comportamento das espécies no mundo inteiro.
“É cada vez mais comum, em vários lugares do planeta, que os tubarões estejam se aproximando da costa. E aí quando a gente vai ter uma série histórica bacana, o monitoramento precisa acabar porque o financiamento é descontinuado”, comenta.
Para Oliveira, Pernambuco deveria dispor de um Centro de Referência para monitoramento e conservação marinha, com recursos previstos no orçamento estadual e atuação contínua, independentemente de mudanças de governo. “Os incidentes deste ano aconteceram com duas crianças e uma jovem de 19 anos. Isso reforça a necessidade de ampliar as ações educativas junto à população, inclusive nas escolas”, acrescenta.
Prevenção em risco
A diretora-presidente do Instituto PROSHARK, Fernanda Lana, ressalta que a interrupção do monitoramento coloca em risco as medidas de prevenção que já foram tomadas. A instalação das placas de alerta nas áreas de risco, por exemplo, é realizada a partir de dados obtidos pelo acompanhamento dos animais.
“O que balizou a colocação dos alertas foi o monitoramento realizado até 2015. Temos muita informação coletada no passado, mas sem a continuidade do trabalho, você não consegue entender como é o uso atual do ambiente”, explica a pesquisadora, que é mestre e doutora em Recursos Pesqueiros e Aquicultura pela UFRPE.
Ela também ressalta que os dados de monitoramento são essenciais para o desenvolvimento de políticas públicas. “Muitas vezes, a sociedade cobra os cientistas por resultados concretos das pesquisas, mas nós não somos tomadores de decisão. A pressão deve acontecer para que o poder público utilize esses dados para agir com eficiência”, afirma.
Recuperação ambiental
Para a pesquisadora, Pernambuco também precisa avançar na recuperação dos ecossistemas costeiros, especialmente dos manguezais historicamente impactados por aspectos como expansões urbanas e portuárias, além da pesca predatória. “É preciso utilizar os recursos de compensação ambiental para recuperar os manguezais, que são a base do ecossistema marinho e têm sido degradados a décadas”, diz Fernanda Lana.
Segundo a pesquisadora, restaurar habitats degradados não eliminaria completamente os incidentes, mas poderia reduzir a frequência dos encontros entre humanos e tubarões. “Com maior disponibilidade de alimento, áreas recuperadas, a interação certamente irá diminuir. Pode não acabar, mas vai diminuir”, acrescenta.



