Pernambuco

“A gente só conseguia chorar”: incêndio destrói amostras de anos de pesquisas na UFPE

O sentimento não é só da universitária Bruna, mas de toda a comunidade acadêmica. Estudantes e pesquisadores perderam equipamentos, amostras e estudos de anos. Reitoria estima prejuízo de cerca de R$ 100 milhões

Fonte: Diario de Pernambuco

“A gente só conseguia chorar, lamentar mesmo, porque todas as nossas amostras estavam aqui”. O desabafo é da estudante de Odontologia Bruna Vilela, que viu parte do trabalho desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ser destruída pelo incêndio que atingiu o antigo prédio da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (DINE), na Zona Oeste do Recife, na noite desta quarta-feira (7). O reitor da Universidade, Alfredo Gomes, estima um prejuízo de R$ 100 milhões

Bruna está no oitavo período de Odontologia e participa de um projeto de iniciação científica na área de desenvolvimento craniofacial e transtornos neuropsiquiátricos, como TDAH. As amostras utilizadas na pesquisa estavam armazenadas no Núcleo de Inovação Terapêutica (NUPIT), que funcionava no prédio atingido pelas chamas.

“Não só as nossas, mas de muitos pesquisadores que estavam há anos, mais de 12 anos de pesquisa. Então tinha pesquisa de Covid, câncer, obesidade, TDAH, autismo. Muitas linhas de pesquisa foram perdidas, que estavam armazenadas aqui no NUPIT. Então é muito revoltante, é muito triste essa situação que a gente está passando”, contou.

Segundo a estudante, ela soube do incêndio quando chegou em casa após sair da universidade. Amigos começaram a enviar vídeos e fotos do prédio em chamas. Alguns colegas estavam em aula no momento e deixaram a sala para acompanhar o incêndio.

De acordo com o reitor da UFPE, Alfredo Gomes, todo o andar superior foi destruído. “Estimamos em termos de equipamentos e insumos e material de maneira geral um prejuízo de cerca de R$ 100 milhões. Vamos fazer reuniões com as equipes que coordenam os projetos para que esse número seja apurado adequadamente”.

O reitor ressalta que outra grande perda com o incêndio: foram as pesquisas. “No local, funcionavam vários grupos de pesquisas. Lá tinha cerca de 80 dissertações e teses de doutorado. Ou seja, mais de 20 anos de pesquisa eram guardados lá”.
A unidade trabalhou durante a pandemia com foco na covid-19, mas é um prédio que guardava majoritariamente as pesquisas de insumos farmacêuticos.

“Eu quero fazer uma observação, nós estamos em via de construir um prédio aqui na Universidade, que iria acomodar parte dos laboratórios que trabalhavam lá. Então, tínhamos retirado há pouco tempo parte do material que funcionava no primeiro andar de lá, mas de qualquer forma não conseguimos tirar os equipamentos essenciais”, pontuou Alfredo Gomes.

“Todas as amostras que ainda iam ser analisadas, ainda iam passar por experimento. A gente não sabe nem como é que vai começar novamente. Depois desse incêndio, grande parte dos equipamentos que estavam aqui e também todas as amostras foram perdidas”, lamentou a estudante Bruna.

Segundo ela, havia pesquisadores próximos de defender dissertações e teses e pós-doutorandos que também mantinham amostras no local. “Provavelmente vai ter alguma reunião. Tinha gente que estava para defender também seus projetos de mestrado e doutorado, ainda no final do mês. Também tínhamos pós-doutorandos que estavam com suas amostras aqui. Então, a gente realmente não sabe. Ninguém parou para pensar nisso ainda. Está todo mundo muito em choque”, disse.

“Tudo perdido em apenas uma noite”

O pesquisador Assis Tiago também perdeu parte do trabalho desenvolvido ao longo de anos. Doutor em Ciência da Computação, ele integrou por cerca de 12 anos o Grupo de Pesquisa em Redes e Telecomunicações (GPRT), que, segundo ele, possui mais de 30 anos de atuação.

“Tudo perdido em apenas uma noite. Muito mais do que 12 anos, na verdade. Mais de 30 anos de projetos, pesquisa”, afirmou.

Assis contou que esteve no local na noite do incêndio e acompanhou o avanço das chamas. O pesquisador afirmou que os espaços eram divididos por estruturas de madeira, o que teria contribuído para a rápida propagação das chamas.

Incêndio atingiu prédio na noite de quarta-feira

O incêndio começou por volta das 19h desta quarta-feira (7), no antigo prédio da DINE, nas proximidades da Casa do Estudante da UFPE. As chamas foram percebidas por estudantes e professores.

Segundo o Corpo de Bombeiros, o fogo estava concentrado no pavimento superior. As equipes atuaram em três frentes para controlar as chamas. O major Calado, supervisor de operações da corporação, informou que 25 bombeiros participaram da ocorrência, com sete viaturas, além do apoio da Polícia Militar e da Neoenergia. Não houve registro de vítimas.

A UFPE informou que não havia estudantes ou funcionários dentro do prédio quando o incêndio começou, porque o expediente já havia sido encerrado. A universidade dispõe de equipe de Segurança Institucional e mantém contrato com uma empresa de segurança.

O imóvel já abrigou o Restaurante Universitário, que foi desativado há bastante tempo. Depois, passou a sediar a Diretoria de Inovação e Empreendedorismo. Atualmente, funcionavam no local vários laboratórios e o Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica (NUPIT).

O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, esteve no local e afirmou que a origem do incêndio ainda não havia sido identificada. Segundo ele, laboratórios ligados ao NUPIT funcionavam no prédio e armazenavam amostras e equipamentos utilizados em dissertações e teses.

Também foram atingidos espaços ligados às áreas de informática e computação.

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